sábado, 14 de abril de 2012

A TECELÃ E O NETO

Todas as tardezinhas eu via aquela senhora sentada na poltrona da sala tecendo o seu crochê. Suas mãos envelhecidas e lentas abriam um novo horizonte no espaço com a enorme agulha metálica acompanhada de uma linha colorida. Uma espécie de movimento multiforme e trêmulo tangendo senóides, hipérboles e parábolas, mesclando-se com fatos do passado em quadros emoldurados na lembrança.
Aniversários de filhos ansiosos e pequeninos soprando as velas acesas de suas datas apagadas com seus corpinhos miúdos congelados no tempo. Casamentos com igrejas superlotadas e padres caretas balbuciando em latim suas rezas milenares. Invernos rigorosos avançando sobre os campos, tingindo de cinza os brotos e os ramos, com os pássaros voando em desespero para a segurança de seus ninhos.
Bandos de ciganos oferecendo tachos de cobre e comprando ouro velho (quem diz que o ouro fica velho!), mas os comprava enquanto a ingenuidade alheia era da extensão de uma vila interiorana.
Jagunços que amedrontavam na tela dos sonhos e no bailar dos abanos nos terreiros de café mudos na lembrança.
A agulha de crochê avançava pela tarde com a destreza dos secundeiros responsaveis pelos degraus das horas, nos sagrados movimentos que erguiam as tampas dos baús envelhecidos pelos anos.
O seu netinho sempre brincando no chão a mesma brincadeira de menino. Ele puxava incessantemente o fio da nunca terminada colcha de crochê. Enquanto a avó tecia, ele destecia.
Passava assim uma parte de sua infância naquela sala mal iluminada, movimentando fios infinitos com curvas insondaveis e arrancões despercebidos. No outro dia, sua avó tecia, enquanto ele destecia. Ela com a experiência da agulha. Ele com a impetuosidade do seu tear.
Ela, tecendo, destecia o tempo. Ele destecendo, tecia o tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário