sábado, 31 de março de 2012

COVEIRO DA MEIA NOITE

Graciano trabalha muito após o último morador da vila se retirar para dormir. Último? Bem, nem tanto assim. Restavam os bêbados com seus goles de tropeços nas pedras frias. Assim como os loucos para dar uma polida na superfície da madrugada. Também, após as prostitutas esconderem suas navalhas nas entranhas juntamente com a féria do dia barganhada em vodka com limão. Do dia? Não, da noite. As prostitutas amanhecem com outras faces.
Estas eram as ávidas testemunhas oculares dos suspiros mais reprimidos na escuridão vestida de verdugo.
Graciano lhes dava muita atenção. Quem não lhes dava? O gerente do banco? Coitado! Se é que poderemos considerá-lo normal por uma profissão decente, jamais viu uma rosa do seu quintal florido! Isto é padrão de normalidade? A cor do dinheiro e a posição social de cada cliente, o que mais lhe importava! A natureza que lhe desse conta do descaso, já que esta palavra de cunho financeiro, pudesse lhe cobrir sua pressa afoita.
Mas quem daria fé a Graciano e seus companheiros noctívagos? Os mais jovens? Meu bem, esta turma quer mesmo é curtir a vida. Engraçado, eles que a possuem toda pela frente, não medem os cascilhos de seus freios.
De que se ocupa Graciano? Bom, já passa da hora de informar-lhes. Seu ofício foi escolhido por ele mesmo: trata-se de ser coveiro de qualquer animal que tenha morrido pela cidade. Sejam cães, gatos, papagaios ou quaisquer outros com ou sem estimação suficiente de seus donos. Dava-lhes um ritual fúnebre com direito a orações repetitivas. Graciano de veste acerdotal recomendava suas almas ao céu dos animais.
O coveiro da meia noite um dia ou uma noite, não se sabe com certeza, desapareceu. Cada um que enterrasse os seus mortos, pois ele mirava algo superior.
Cansado de ver a natureza abandonada e desamada, fixou-se num alvo indispensavel.
Graciano além das mil montanhas, aguarda com ansiedade apanhá-la, repousá-la sobre seu carrinho de mão e finalmente enterrá-la com dignidade de uma morta viva.
Ontem quase conseguiu. Ela estava cheia e brilhante. Tem pressa, porque em breve ela será minguante.

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